dailyplanet #005: a criação da pessoa que pensamos ser

Olá Cazuzas e Chicos,

Hoje a internet se incendiou com diversos caminhos para mergulhar. Como não nego um poço bem fundo de metáforas inutilizáveis no cotidiano humano, despiroquei em novas e divertidas dúvidas existenciais – bem melhor que as certezas.

Para entender: Como se Faz um Pênis em uma Pessoa com Vagina 
E também isso: Boeacht Manda Malafaia Procurar uma Rola

Se você analisar, de alguma forma, há uma ligação entre essas duas notícias. A primeira nos leva a triste realidade em que vivemos em um país extremamente intolerante – e, se antes essa intolerância palpitava o rancor contra homossexuais e pessoas trans, agora ela já está dançando pelas ruas livre, incitando o ódio em formato de pedras – na cabeça de crianças. 

Uma sociedade sem valores definidos ou sem uma cidadania bem trabalhada, que se ergue feliz aos pés dos deuses do dinheiro e da ostentação, cresce como uma criança mimada e embalada para bater no primeiro que lhe negar a chupeta. Em tempos de crises é ainda pior; impotente diante da falta de grana nos bolsos e cega demais para procurar os próprios deveres, corre para a igreja mais próxima pedindo a ajuda de um senhor onipresente. Ele vai dar. Ele vai ajudar. Ele vai fazer o ouro cair do céu. Mas, primeiro, é preciso que o seu ouro vá para o bolso de alguns pastores. Sabe, é meio que uma burocracia, mas fica susse, tudo vai dar certo. Valhalla lhe espera.

Óbvio, esse é um comentário extremista, justamente para exemplificar um extremo. Diversas igrejas, evangélicas ou não, ajudam pessoas diariamente. Não é sobre esse mérito que estou falando – tô falando, o mais diretamente possível, com o senhorzinho de gravata no pescoço que ensina ao próximo que o amor é importante sim, irmão, mas que primeiro vem o julgamento. A pedra. Depois, quem sabe e só se tiver de bom humor, o perdão dentro das regras da casa. E que regras!

Em busca de saber quem são, essas pessoas encontram uma igreja que as suga em sua essência. Em busca de entender quem podem ser, pessoas são agredidas nas ruas, sem qualquer tipo de justificativa válida perante um regime democrático, o qual às vezes-quem-sabe vivemos.

É aí que chegamos no segundo texto, onde a Letícia tão bem descreveu certas delicadezas do universo trans. A dúvida é bem mais natural que o ódio. O medo pelo desconhecido, que muitas vezes pode sim vir quando se conhece um “ser humano fora do padrão”, é natural e aceitável. Ok, tu não tá ligado no que é transexualidade. Ok, tu não sabe que isso não é ser “bicha, sapatão” ou qualquer nome inventado para agredir alguém. Ok, sem problemas, é fácil ensinar se tu estiver disposto a ouvir. Tu tá?

Pronto, explica-se. Cria-se o diálogo e abre-se as portas para a tolerância, para o bem estar em comum. O que algumas vaginas e pintos a mais podem ditar sobre nossas vidas? Por que os órgãos sexuais são tão importantes para invocar o amor e despertar o ódio daqueles que se fantasiam de filhos de deus?

COMO DESCOBRIR QUEM REALMENTE SOMOS EM UM MUNDO QUE SE ASSUSTA COM EXPLOSÕES INDIVIDUAIS?

Ninguém sabe o que quer da vida direito. Se tu tem 20 anos e sabe, bixo, eu acho que tu tá errado. Porque a gente nasce meio que pré-programado com diversas modalidades e aptidões básicas, mas somos adaptados ao meio em que vivemos como virgens caixinhas de aprendizado – o que é bom e ruim – e tudo que sabemos de nós mesmos é recriado por outros.

Parimos uma vez, com sangue, e parimos de novo, com o tempo.

Continuamos nascendo e passando pelas fases do prezinho da vida. A cada decisão pessoal, analisamos um pequeno “eu” em dúvida, que cobra explicações curtas sobre complexos teoremas pessoais. Nem o zodíaco aguenta. Não conseguimos definir quem somos e, por isso, seguimos apostando em quem não somos.

E isso não em um tom de “ah, tu vive uma mentira, vem pra marcha da maconha” – não; isso num clima suave, tranquilo, da própria incerteza comum da vida. Da própria certeza, aliás, de que nada se define e que somos oceânicos, completos e infinitos. Inteiros compartilhados em sensações externas e internas, tão nossas quanto deles. Tuas, minhas, de Deus e dos peixes. Das aves.

E aí é outra pira. Mas nós somos.

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  • Ingrid Santana

    É vizi, acredito que se os indivíduos não tem mente receptiva pra conversar e estar a escutar novas ideias, se repensar a cada papo… o remédio pra isso é tempo e experiências, até talvez pós vida. Já cansei de debater sobre assuntos (até que não giravam tanto em torno do que falou no texto) e simplesmente a pessoa às vezes não aceita, cara. Nem com cristo descendo ao céu, sabe?
    Não é por isso que acho que as pessoas devam desistir das outras ou “ah, é assim mesmo né, deixa pra lá, dane-se…”, mas a partir do momento que a gente faz o que pode, o tempo é que tem chance de trazer outras vivências (boas ou ruins) onde talvez as coisas mudem. Talvez. O Lula teve câncer e nem assim acho que parou de fazer falcatruas… xD Talvez só a doença vegetativa ou morte pra algumas pessoas perceberem que valores que tem e como isso atinge o seu redor.

    • Vizi, às vezes é foda. Tem coisas que são opinião, ok, mas tem coisas que envolvem caráter – ou o simples fato de: dude, não seja babaca. No fim, eu penso: a gente tem que arranjar meios de ser feliz e provocar a felicidade e a paz no mundo, de alguma forma. E viver, a partir das nossas próprias ideias, porque a vida corre.