Análise: LOVE – 1ª Temporada (Netflix)

CUIDADO! O TEXTO CONTÊM DIVERSOS SPOILERS. QUE A FORÇA ESTEJA COM VOCÊ.

Uma história humana sobre nada.

Lovea nova (mas nem tão nova assim) produção da Netflix, tem vários elementos de séries que você descarta antes dos seus primeiros 15 minutos. Seu início parece domado, preso entre quatro paredes brancas que você já viu antes. Personagens confusos e fáceis de ler, como uma tela de TV quebrada nas comédias românticas do começo dos anos 2000.

Mas de alguma forma, essa equação ultrapassada dá certo pela mágica existente na ponta dos dedos de ouro da Netflix.

Love não é uma série para ocupar lugar na sua prateleira de favoritos. Possivelmente, The OC ainda vai vencer o prêmio de melhor trilha sonora, o que não desmoraliza o fato de que você precisa esperar os créditos rolarem para ser atingido pela pequena dose de genialidade que Jud Apatow, Paul Rust (Gus) e Lesley Arfin criaram ao representar tão bem um reflexo em sépia dessa geração.

Diferente de Master of None, outra produção da casa, Love não se sustenta apenas por estereótipos. Ela é uma representação clara, sem pretensões irônicas sobre a vida, de uma geração perdida e sincera. Essa série não serve para ser tema de uma dissertação sobre a Geração Y, porque seu público justamente não suporta mais ver pretensões listadas em posts do Buzzfeed.

LOVE-GARAGEMLove é uma série sobre pessoas que erram. Quem se encontram, que não atendem telefones e são covardes. Sobre sexo, impotência e separação.

Poucas séries são tão sinceras sobre a limitação de seus personagens ao escancarar em todos os episódios particularidades desprezíveis e viradas comovente. A graça de Love mora justamente na forma sutil que essas nuances se encaixam. Não é uma série de heróis nem de resoluções com champagne; ninguém aqui quer levantar bandeiras revolucionárias e muito menos jogar fora o lixo reciclável.

Passamos da fase de Friends e sobrevivemos à uma era de piadas comerciais de TBBT. Agora, as sitcons ganham forma em corpos não expostos em revistas, muito menos em penteados adotados por ricas mulheres brancas da costa californiana brasileira. O que, por outro lado, também não transforma Love em uma representação da realidade, até porque sua proposta é bem clara: entreter. Nenhuma resolução filosófica sairá daqui – você pode encontrar esse tipo de conteúdo em Bojack Horseman, por exemplo.

Love é simples e ganha por isso: por contar uma história, sobre duas pessoas, de maneira única. Pessoas tediosas, pessoas chatas, pessoas incríveis em seus papéis como humanos. Tenho certeza que você já ouviu essa história antes, e Love vai querer fazer você ouvir de novo.

***

Publicado originalmente no Colliseu, em Abril de 2016: LOVE, NETFLIX | Uma história humana sobre nada

Share on Facebook1Tweet about this on TwitterShare on Google+0Share on Tumblr0