Análise: Barba Ensopada de Sangue – Daniel Galera

Livro lido em 2014, então essa análise é mais como uma lembrança da leitura daquele ano. Decidi compartilhar as impressões de qualquer forma, mesmo sendo mais um relato do que uma crítica. Primeiras impressões sempre são válidas, compartilhe a sua também!

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Devo confessar uma coisa meio babaca da minha personalidade: nunca li muito literatura brasileira. Não preconceito, mas preguiça mesmo. Talvez a escola tenha essa parcela de culpa em não nos apresentar algo mais conteporâneo e mesclar diferentes gêneros, como André Vianco e Machado de Assis, mas de qualquer forma, assumo a culpa. E por preguiça, quando meu amigo falou que estava lendo um autor gaúcho, estranhei levemente esse pequeno achado pessoal dele. Era uma novidade boa, porém. Antes de embarcar em sua missão como mórmon, ele me presenteou com o então “Barba Ensopada de Sangue”, do Daniel Galera – e foi o melhor presente que ele já me deu.

O livro é curioso, com um ritmo próprio, o que o torna cativante para alguns e maçante para outros. No meu caso, explodiu minha cabeça com as novas possibilidades de escrita narrativa que eu reconheci. Logo nas primeiras páginas você encaixa sua leitura com a voz do autor e sua forma de estruturar o texto de maneira humana e objetiva. Essa foi a parte da leitura que mais me chamou a atenção: a facilidade de se contar uma história.

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Daniel consegue estruturar um suspense em meio a vida pacata de um treinador físico. Com metáforas leves e sem muitas conclusões constantes sobre o desenrolar dos dias, ele narra a passagem de vida do protagonista dentro de uma pequena vila/cidade catarinense após o suicídio do pai.

Gaúcho, como o autor, ele logo nos cativa com o sotaque sulista. Bem, como sulista, meu sangue adora esse tu carregado de sorriso, mas como catarinense, admito que nada é mais charmoso que um “bá, tche!” bem colocado. Falas curtas, que se atém a explicar diretamente o que precisa ser explicado, também são uma boa forma de continuar a concentrar os leitores em uma história calma e misteriosa, ao mesmo tempo. A história, em si, é formada por camadas curiosas e um desenrolar anacrônico.

O número de protagonistas é limitado e bem construído, cada um com características próprias bem definidas – características, essas, ainda mais interessantes pelo fato que o protagonista (cujo qual o nome nunca é dito) não consegue reconhecer rostos por uma condição genética; seu cérebro apaga em sua mente qualquer traço conhecido, até mesmo os próprios que ele mira em frente ao espelho.

Essa confusão é ponto chave para o início da caminhada do rapaz em procurar mais informações sobre seu avô após o suicídio de seu pai. O homem só sabe que ele fora assassinado anos antes e se muda para a mesma cidade. É quase um ato automático, como um distanciamento justificado. Tendo a fisionomia extremamente parecida com a do velho parente, ele procura por indícios da vida do seu antepassado que permanecem como um segredo velado do local.

Me apaixonei pelo livro pela maneira simples e direta em que o protagonista leva a vida, cada vez mais se transformando no próprio avô que ele procura. A linguagem, o charme que uma cidade pequena transmite como um personagem em si e todos os detalhes de um romance atual e bem trabalho; Daniel conseguiu reunir pedaços desencaixados de um grande quebra-cabeça, e fez sentido.

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Editora: Companhia das Letras

Autor: Daniel Galera

Onde encontrar: Saraiva, Livraria Cultura, Amazon (melhor preço)

Número de páginas: 424

Data de lançamento: 2012

Veja no SKOOB.

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