ensaios #001

O maior desafio de se comemorar alguns invernos é manter-se fiel ao seus princípios. Não digo nem em questões básicas de vida, mas em coisas como posições políticas ou algo assim. Quando a gente é mais novo, enxerga as coisas com coração mais terno, sem o glamour e o chicote da vida adulta. Sem as contas acumulando. Santo é aquele que consegue ser bom, mesmo com conta pra pagar. Que divide comida, ri no final do mês e não fica de mal humor quando salário atrasa.

Não é preciso ser besta. Servente de rico mimado. Mas também não é preciso ser monstro, soldado verde em pátio de polícia fascistinha. Existe um meio termo aí, entre ser cretino e ser cristo. Um meio termo difícilzinho de encontrar, ainda tô procurando, mas sei que ele existe e continuar o procurando entre esforços humanos diários é minha pequena missão na vida. Permanecer bom, mesmo que não me permitam.

Mesmo que exijam de mim a pior parte que eu posso ter, não vou lhes dar esse prazer. Vou ser bom, vou ser bom, vou ser bom. E o amor vai vencer, pelo menos, nem que seja, ainda, só em mim.

Para acompanhar o sentimento:

 

a saudade vem em lapsos

O pior de ficar velho não é pagar conta, desgostar de balada, não ser feliz no emprego ou mudar de amigos. Não é ter que parar de fumar, engolir arrogância, perder o último ônibus pra voltar pra casa, ter três cartões de crédito, intolerância a lactose ou pagar a própria consulta no dentista. O pior de ficar velho é perder quem se ama.

Sempre se fica velho, sempre se perde.

Um por um, e você fica só em lembranças de um tempo que tudo era mais sorrisos. Verões com banhos em bacias de ferro, tardes para ver Titanic na sala dos avós, cheiro de almoço de família. Foto completa no natal. Apelidos carinhosos, fantasias na escola. Andar de mão dada nas ruas, passear de carrinho de bebê.

Você vai ficar com saudade de passar vergonha na frente de amigos porque alguém da sua família repetiu a mesma história pela milésima vez. Você vai ficar com saudade de assistir a série que sua avó gostava e também vai ficar com saudade de ver filme dublado porque ela não conseguia ler as legendas. Você vai ficar com saudade de acordar com alguém contanto um monte de coisas estranhas no pé da sua cama, falando também que estava com saudade de você.

Você vai ficar. As risadas já são mais baixas e as fotos são incompletas, ano após ano.
Mas você e a saudade, vocês vão ficar.

a vida não te deve, seu bastardo

É preciso ser lembrado constantemente que o mundo não te deve nada. Absolutamente nada.

No melhor dos casos, você já ganhou uma casa, comida, educação primária, abraços, festas de aniversário, roupas, roupas lavadas, cafés da manhã e parabéns em dias de aniversário.

Tu quer mais, filho da puta?

É foda. falamos que iremos conquistar o mundo. que nossa geração vai revolucionar o sistema de trabalho. Manipulamos o home office, escrevemos livros de auto ajuda com capas descoladas. Tipografia minimalista. Fotos em preto e branco.

Mas as pessoas do metrô continuam as mesmas. o porteiro abre e fecha a porta e o cabelo da atendente na padaria continua preso para trás, combinando com seu avental vermelho. enquanto sonhamos em salvar o mundo com nossa barriga cheia e bem guiada por nossos imensos umbigos, pessoas levantam e trabalham todos os dias. Sem reclamar.

E são elas que mudam as coisas.

Não nós, atrás de nossos teclados raivosos, aprovando campanhas contra o câncer de mama para a capa do facebook de alguma empresa do interior do estado.

E tudo parece um caos, porque você quer poder justificar a vida que ganhou, mas também quer pedir mais. nem todo mundo que tem discursos bonitos reconhece mentiras escritas. É difícil viver uma década de revoluções diárias inúteis e descartáveis.

Não sei como as pessoas esperam reconhecer o salvador, se a gente não reconhece nem o próprio rosto no espelho.

mr robot

desamores

– A pessoa tem que ser louca pra amar você, Tom. Tem que ser absolutamente fora da casinha, retardada, perdida na vida. Tem que não gostar nem um pouquinho, nem um pouquinho!, de si mesma. Tu não deixa! Não deixa ninguém entrar, ninguém se importar com você. Afasta todo mundo desse seu pequeno mundinho perfeito. E pra quê? Para ficar sozinho a noite? Para poder reclamar da vida? Escrever? É por isso, Tom?! Espero que você seja feliz sendo esse artista de meia tigela.

– Cris..

– Não, Tom. Chega. Eu tô indo. A gente se vê.

Ela virou, pegou a bolsa de cordinhas claras em cima da mesa e bateu a porta. Nem o Farofa se mexeu. Ele também parecia conformado, não surpreso em ponto algum com as palavras de Cris. Nem eu, por isso não protestei. Ela estava certa, afinal, eu nunca tinha aprendido a me portar direito como humano civilizado.

Eu queria o agrado. A comida no pote. Mas às vezes a gente tem que abanar o rabo, e isso me entediava até os ossos. Meu fraco sempre foi querer menos da vida.

Depois que Cris saiu, liguei a TV, coloquei comida pro Farofa na vasilha de frango da noite passada, arrumei as meias na varanda para secar e sentei na poltrona, com um cigarro na boca. Tirei o porta copos de cima da mesinha central da sala. Foi a melhor coisa que fiz o dia inteiro. Foda-se você e seu porta copos, Cris. Foda-se sua opinião bem formada da política russa. Foda-se você. Foda-se. Foda-se. Foda-se.

– Quantas vezes eu ainda preciso repetir?

Farofa virou a cabeça, me ouvindo chutar a mesa. Olhei para seus olhos vira-latas e vi, mesmo por trás de seu amor canino e ignorante, a mesma certeza que vi nos olhos de Cris. Eu devia estar louco, mas ali estava, aquela alegria tola de gostar da vida e não achar que eu um dia fosse entender. Foda-se.

Não estar confuso, sozinho, batendo nas paredes. Não, eu nunca ia entender. O meu mundo era vermelho, fedido, sozinho. Todo mundo tenta te empurrar pra frente quando você está na merda, mas ninguém define muito bem o que é estar na “frente”. Para qual lado se deve caminhar quando a bunda não tem vontade de sair do sofá de casa? Todo mundo tem um conselho preferido pra te dar. Par de meias no natal, essa babaquice de ser simpático. Cada vez que eu tentava disfarçar minha carcaça suja por meio de lantejolas brilhantes e copos de vidros bem lavados, acabava quebrando vasos no carpê de entrada. Eu nunca soube como ser a porra de um ser humano normal e agradável, mas mesmo assim, sempre me via empurrado pro meio dessa merda contínua e social.

Mesmo quando o controle da TV não pegava mais, eu podia ver sua programação se atualizando e os carros batendo na esquina do lado do apartamento. Eu podia ouvir os vizinhos brigando e transando. Crianças chorando no restaurante abaixo. Eu podia ver a vida que corria ao meu lado.

Não em mim. Essa vida nunca corria em mim. O foda é que realmente pensei que Cris entenderia mais de desamor.